Uma questão de escolha
Caminhante,
tuas pegadas são o caminho, nada mais.
Caminhante, não há caminho;
Faz-se o caminho ao andar.
A . Machado
Sabemos há muito que o homem é fruto de suas escolhas. Com base nelas, delimitamos nossa caminhada, que impacta diretamente na formação de nossa individualidade. Como no poema acima, não existe total fatalidade e nosso destino é resultado de nossas ações.
Por isso, o processo de escolhas das rotas a serem seguidas é determinante na nossa evolução.
Devido à importância do tema, gostaria de refletir um pouco sobre a questão de escolha, indo um pouco além do conhecido e já muito estudado livre-arbítrio. Como resultado da tríade ciência- filosofia- religião, aqui também vamos comparar a doutrina com o que diz a psicologia dos homens.
Segundo o psicólogo argentino Rodolfo Bohoslavsky*, quem escolhe um caminho está, automaticamente, deixando de escolher uma infinidade de outros caminhos. Deixam-se objetos e formas de ser. Ou seja, a priori, escolher significa "abrir mão". Por isso, a escolha de decisões importantes acarreta conflitos que devem ser enfrentados e resolvidos.
Segundo Kardec**, "Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes... deu a cada um determinada missão com o fim de esclarecê-los e fazerem alcançar, progressivamente, a perfeição para o conhecimento da verdade e para aproximá-los dele... Os espíritos alcançam esses conhecimentos, passando pelas provas que deus lhes impõe. Alguns aceitam essas provas com submissão e alcançam mais prontamente o fim de sua destinação. Outros não as suportam senão murmurando e, por suas faltas, permanecem distanciados da perfeição e da felicidade prometida".
Muito falamos que cada espírito escolhe ou não evoluir. Isso ocorre através da escolha em praticar o bem, ser humilde, fraterno, etc. Até esse ponto, não há qualquer novidade. Mas é importante lembrarmos que, quando optamos pelo caminho do bem, automaticamente também escolhemos não sermos uma série de outras coisas. Para praticar o bem, necessariamente não se pode praticar o mal. Para desenvolver a humildade, é necessário combater a arrogância. Conseqüentemente, também não é possível elaborar a fraternidade sem diminuir o egoísmo.
Muito nos preparamos, ou assim pretendemos, para as conquistas de nossas virtudes. Porém, às vezes parecemos esquecer de que nada disso adianta se, simultaneamente, não procuramos combater nossas tendências. Assim, o processo de escolha dos nossos caminhos pode ser bem mais complexo do que imaginamos. Sabemos que para atingir a perfeição moral sugerida por Cristo, precisamos purificar nossa alma de todas as imperfeições. Contudo, também sabemos ser impossível atingir isso rapidamente, sem grande labor. Dessa forma, as tendências devem ser trabalhadas e eliminadas paulatinamente. A questão, então, passa a ser qual (ou quais) tendências devo trabalhar de cada vez. Quais as prioritárias?
Voltemos um pouco à teoria de Bohoslavsky. Segundo ele, a escolha consiste em abrir mão de algo (caminhos a serem percorridos, comportamentos, atitudes...). Assim, na medida em que deixamos alguma coisa ou algum hábito, há muito presente em nossas vidas, sentimos o ego empobrecido pela separação desses objetos. Esse sofrimento é chamado de luto.
Ora, não será esse luto o responsável pela grande dificuldade que temos em nos desvencilharmos do nosso homem-velho?
O problema é que, apesar de muitas vezes nos esforçarmos para conquistar nossas virtudes, nem sempre queremos deixar nossas tendências...
Toda mudança exige que deixemos nossa zona de conforto, o que nos causa um certo medo e insegurança quanto ao desconhecido. Principalmente, quando essa mudança nos direciona para o crescimento moral, deixando de lado as comodidades e prazeres mundanos (como é estreita a porta para o reino de Deus!).
Quando dizemos que um determinado espírito escolheu um certo caminho para evoluir, significa que ele escolheu abrir mão de tais ou quais tendências.
Assim, a escolha que fazemos sobre a nossa caminhada mexe com valores íntimos do nosso espírito. Conforme Bohoslavsky, "uma escolha madura é uma escolha que depende da elaboração dos conflitos e não de sua negação, com conhecimento do que se pode e do que não se pode".
Por isso, é fundamental para o nosso crescimento termos clareza não apenas sobre as nossas virtudes e tendências, como também de quais dessas tendências estamos dispostos a nos afastar. Sim, uma vez que não estamos preparados para, repentinamente, corrigirmos todas nossas impurezas (a natureza não dá saltos...). Isso nos remete à antiga máxima ditada por Sócrates há mais de 2.500 anos, 'Conhece-te a ti mesmo', segundo o Livro dos Espíritos, meio mais prático e eficaz para se melhorar nesta vida e resistir aos arrastamentos do mal.
Mas, afinal, qual a importância disso?
Uma vez conhecendo mais sobre si mesmo, é possível a um indivíduo reconhecer suas limitações e assumir-se. Assim, consegue entender-se como o causador de seus sofrimentos e de seu insucesso em não conseguir vencer alguns de seus desafios de reforma íntima. A partir desse ponto, em que não consegue vencer tais desafios, pode analisar se realmente quer mudar. Ora, uma vez que esse indivíduo identifica que não consegue desenvolver, por exemplo, sua humildade porque não quer abrir mão do prazer que sente com a sua arrogância, pode mudar o seu foco de trabalho. Passa, então, a concentrar seus esforços em trabalhar a sua arrogância. Como resultado pode, por exemplo, entender os prazeres gerados por essa postura como sendo mundanos e, por isso mesmo, transitórios e limitados. Acontece que, apesar de termos total consciência de algumas de nossas fraquezas e seus efeitos, muitas vezes preferimos continuar com a mesma conduta. Não raro eu quero continuar usufruindo os prazeres, ainda que provenientes da minha arrogância, egoísmo, orgulho...
E agora? Meu trabalho de autoconhecimento foi desperdiçado?
Absolutamente não. Assumindo que ainda não estou preparado, ou melhor, não quero eliminar essa minha tendência, posso priorizar o trabalho em cima de outra tendência em que já esteja decidido a enfrentar. Assim, posso voltar a essa fraqueza em outro momento, agora sim mais fortalecido para combatê-la.
Não será importante que, no processo de crescimento, eu tenha maior clareza sobre minhas escolhas, a fim de poder traçar um plano estratégico que se adapte melhor à minha condição evolutiva? Um plano que priorize aquelas tendências para as quais já estou mais preparado em combater e que respeite aquelas que ainda valorizo, de forma a melhor aproveitar meus esforços de reforma íntima?
Tudo isso é difícil de ser feito. Ninguém disse ser fácil adentrar nos reinos do Pai. Contudo, o Livro dos Espíritos é claro quando diz que "...o homem pode sempre vencer suas más tendências pelos seus esforços ... às vezes fracos esforços .. .É a vontade que lhes falta...".
Talvez já tenhamos refletido bastante e, quem sabe, já não seja a hora de assumirmos uma postura mais ativa quanto ao nosso crescimento.... De acordo com a mesma obra, quem já possui a leitura de mais de algumas linhas do Evangelho de Cristo já se encontra preparado para o trabalho...
>* Orientação Vocacional - A estratégia clínica
** O Livro dos Espíritos
Fernando Tatit
São Paulo, janeiro de 2.004